Recobrei-me um pouco da dor da perda, mais ainda não me acostumara, e irá ser muito difícil tendo passado nem vinte dias da morte dela. Direcionei os espelhos¹ para a estrela mais próxima, o sol, estamos dentro do sistema solar da terra ainda, e rumei até Ankaa sem nenhum problema aparente, a viajem foi tranqüila e minha irmã, como sempre no seu jeito, calada no acento do lado, observando, sem curiosidade, o painel de controle, liso e quase sem botões. Com os Aics² na cabeça, observei pelos monitores e não encontrei nenhum planeta orbitando Ankaa, uma súbita sensação de perda corria a minha mente e se confundia com as lembranças vívidas e joviais da mamãe. Imediatamente, uma forte explosão ocorrera na estrela, mas isso era impossível, se isso ocorresse não sobraria nada de mim nem da mamãe e muito menos da Stellarium, mas aquela explosão era somente a minha mente, uma explosão mental, ou emocional se ficar mais fácil de entender, e minhas lembranças se confundiram ainda mais, luzes ao meu redor, brancas e metamórficas, dançavam e me entorpecia, um êxtase libertino como se o meu fim tivesse chegado, as minhas lembranças ficaram alvas e foram perdendo a nitidez que adquirem na flor de sua criação, como se o tempo passasse muito rapidamente, - quando se é um viajante do espaço, onde o tempo é somente uma referência para não nos perdermos no vasto e infinito buraco de nada que é o universo, não percebemos o quão rápido ele passa até ficarmos mais velhos, sem o sol do alvorecer, o rubor do anoitecer, o tempo não passa de uma invenção humana para cruzar duas linhas de espaço num mesmo tempo, transformando-se num encontro casual ou numa mera coincidência. – e então cai no mesmo lugar de onde não havia saído, a sala de controle do barco³ e tudo La fora estava normal, as estrelas as trevas e a calmaria de um universo equilibrado, mas aqui dentro, junto comigo e com a minha irmã, havia uma figura familiar, uma forma humana prostrava-se diante de nós, observando-nos com a sua barba branca e curta, como a de um adolescente, seu cabelo também branco, não grisalho, branco de natureza, como neve, sua pele alva e nos dava uma sensação paternal e olhando para nós falou:
- Todas as respostas já foram criadas desde o início dos tempos, as perguntas vieram, pois não somos capazes de entender tais respostar por conta própria. Antes que pergunte, eu receio em dizer que as suas respostas não estão aqui, que vieste no lugar errado e que por menos que você me entenda, não conseguirá me entender antes de entender o que tem dentro de você, dentro daquela que te deu a vida, dentro de sua raça. Eu não posso te dizer, pois você sabe mais que eu, onde estão todas as respostas que procura, e queres ajuda para encontrá-la também não terá de ninguém, mas se queres ajuda para entendê-las, digo-lhe que deves procurar Giausar que reside em Boho que orbita a estrela Errai à 107,30 anos luz daqui.
Com um sorriso paterno ele foi embora tão rápido quanto a sua estadia, esvaecendo-se como uma cor de desbota, e sua mensagem ficou confusa em minha mente, assim como tudo o que ocorrera neste dia, o barco ficou a deriva, e o navegador ficou rastreando a procura da estrela e sobre algum rastro de vida que pairasse ao redor da Stellarium, o segundo casso não houve sequer rastros de vidas primitivas como vírus ou bactérias, como se aquela figura jovial fosse somente um feixe de luz, um holograma ou qualquer coisa deste gênero. Mas o programa rastreou a estrela e é para lá a nossa próxima parada, seja esta mensagem um delírio ou não, nada mais está fazendo sentido na minha existência não custa nada tentar.
¹ Espelho - Conhecidas atualmente como placas solares, captam ondas eletromagnéticas emitidas pelos astros luminosos e as transmitem para um transformador de energia.
² Aic - Arco de Interação cerebral, emite as ondas cerebrais aos computadores da nave transformando-os em comandos.
³ Barco - Forma como são chamados as espaçonaves tripuladas.